O ESPIRITISMO E O RACISMO
A destruição dos
preconceitos de casta e de cor é um dos objetivos do Espiritismo. Isso é bem
claro na kardequiana (ou Kardecista).
O progresso da civilização
passa, necessariamente, pela abolição de toda e qualquer forma de preconceito.
O Espiritismo, “destruindo os preconceitos de seita, de casta e de cor, ensina
aos homens a grande solidariedade que os deve unir como irmãos.”
Nesse aspecto, do progresso da Humanidade, o Espiritismo pode ter uma influência muito importante, devido à ampla visão que oferece, do homem, da sociedade e do cosmos. Antes de se achar sujeito a determinada cultura, nacionalidade, etnia ou religião, o homem é um ser cósmico, um cidadão do universo. Esse princípio, se bem compreendido, faz ver a realidade sob uma outra ótica, sem os preconceitos generalizados que se encontram ainda arraigados na alma humana. Para os Espíritos elevados, “a pátria é o Universo; na Terra, é aquela em que possuem maior número de pessoas simpáticas.”
Pelo entendimento dos mecanismos que regem a lei da reencarnação, a superioridade que certos grupos étnicos atribuem a si torna-se insustentável e até ridícula. Esse tipo de postura discriminatória, existente nas relações entre os diferentes grupos étnicos, ao lado de diversos fatores de ordem política e econômica, tem gerado as desigualdades sociais no nosso planeta, constituindo-se num enorme obstáculo para a construção de uma sociedade mais fraterna e igualitária. Afirmaram os Espíritos a Allan Kardec que essas desigualdades um dia desaparecerão, “juntamente com a predominância do orgulho e do egoísmo, restando tão somente a desigualdade de mérito. Chegará um dia em que os membros da grande família dos filhos de Deus não mais se olharão como de sangue mais ou menos puro, pois somente o Espírito é mais puro ou menos puro, e isso não depende da posição social.”
Segundo Kardec, todos os
homens “são submetidos às mesmas leis naturais, todos nascem com a mesma
fragilidade, estão sujeitos às mesmas dores e o corpo do rico se destrói como o
do pobre. Deus não concedeu, portanto, superioridade natural a nenhum homem,
nem pelo nascimento, nem pela morte, todos são iguais diante d’Ele.”
A mentalidade racista
produziu, na história da humanidade, situações extremadas de discriminação
racial, como a escravidão dos negros africanos, considerada pelo Espiritismo
como sendo contrária à Natureza, “pois assemelha o homem ao bruto e o degrada
moral e fisicamente.” “Os homens têm considerado, há muito, certas raças
humanas como animais domesticáveis, munidos de braços e de mãos, e se julgam no
direito de vender os seus membros como bestas de carga. Consideram-se de sangue
mais puro. Insensatos, que não enxergam além da matéria! Não é o sangue que deve
ser mais ou menos puro, mas o Espírito.”
A ideia de que o homem possa
encarnar como branco, negro, mulato ou índio, estabelece uma ruptura com o preconceito
e a discriminação raciais. Tanto que até hoje, na Inglaterra, muitos adeptos do
Neo-espiritualismo rejeitam a tese da reencarnação, por não admitirem a
possibilidade de terem tido encarnações em posições inferiores quanto à raça e
à condição social. Afinal, como se sentiria um indivíduo de mentalidade racista
encarnado em uma raça que considere inferior? Nesse sentido, as questões que
reproduzimos abaixo são bem elucidativas.
205. Segundo certas pessoas,
a doutrina da reencarnação parece destruir os laços de família, fazendo-os
remontar às existências anteriores.
Ela
os amplia, em vez de destruí-los. Baseando-se o parentesco em afeições
anteriores, os laços que unem os membros de uma mesma família são menos
precários. A reencarnação amplia os deveres de fraternidade, pois no vosso vizinho
ou no vosso criado pode encontrar-se um Espírito que foi de vosso sangue.
205-a. Ela diminui, entretanto, a importância que alguns atribuem à filiação,
porque se pode ter tido como pai um Espírito que pertencia a uma outra raça, ou
que tivesse vivido em condição bem diversa?
É
verdade, mas essa importância se baseia no orgulho. O que a maioria honra nos
antepassados são os títulos, a classe, a fortuna. Este coraria de haver tido
como avô um sapateiro honesto, e se vangloria de descender de um gentil-homem
debochado. Mas digam ou façam o que quiserem, não impedirão que as coisas sejam
como são, porque Deus não regulou as leis da Natureza pela vossa vaidade.”
A diversidade das raças,
condição natural do aparecimento do homem na Terra, resultado “do clima, da
vida e dos hábitos”, não significa, de modo algum, que os homens estabeleçam
juízos de valor discriminatório, quanto à origem étnica de determinados grupos
sociais. Para o Espiritismo, todos os homens “são irmãos em Deus, porque são
animados pelo mesmo espírito e tendem para o mesmo alvo.”
O preconceito e a
discriminação raciais constituem também o grande conjunto de circunstâncias
existenciais a que os Espíritos reencarnantes estão sujeitos. Um Espírito, reencarnado
num corpo de origem negra, estará sujeito à discriminação e isso lhe será uma
condição, uma contingência evolutiva a ser superada. “Para uns pode ser uma expiação,
para outros uma missão”, uma nova oportunidade de aprendizado, já que as
experiências que ele experimentará como negro, serão bem diferentes das de
outro que reencarne como branco, em função das desigualdades sociais.
Essas desigualdades são um
mal que precisa ser eliminado. Todavia, devido à Lei de Progresso, também são
um bem. Ou seja, são utilizadas sabiamente pela Natureza, no aprimoramento
intelecto-moral dos Espíritos.
Portanto, dentro da
concepção espírita, não se sustentam visões fatalistas, “cármicas”, que
visualizem Espíritos reencarnados em corpos de origem negra como culpados,
algozes do passado. A culpa, se houver, será apenas uma condição psicológica,
imposta pela própria consciência do Espírito reencarnante, sem relação alguma
com arbitrariedades supostamente delegadas pelo “plano espiritual superior”.
São essas concepções
fatalistas, baseadas na culpa e no pecado, que levam muitos espíritas e
Espíritos a considerarem os escravos negros como inquisidores, cruzados e
senhores feudais reencarnados, ou judeus massacrados pelos nazistas como
hebreus reencarnados. Essas concepções têm mais a ver com a formação religiosa de
certos espíritas e Espíritos do que com a visão evolucionista do Espiritismo.
Trata-se de uma concepção distorcida da reencarnação que, ao invés de servir
como um poderoso instrumento de compreensão do processo evolutivo dos seres e das
coisas, funciona como fator de alienação, de ocultamento da realidade.
Com que finalidade um senhor
de engenho, por exemplo, tem de reencarnar como negro e sofrer as mesmas dores que
fez os escravos sob o seu poder sofrerem? Seria assim o mecanismo da
reencarnação?
Os seres humanos não são
coisas, objetos que, sujeitos a uma lei de causa e efeito independente de sua
realidade intelecto-moral, tenham que se submeter a reações esquemáticas,
cartesianas. Há uma lógica no processo palingenésico, mas ela está longe de ser
uma lógica mecanicista. Ao contrário, a concepção espírita da palingenesia nos leva
a pensar o processo evolutivo como um continuum caótico, dialético,
contraditório. Isso não significa que inexista uma ordem, necessária e
inexorável, ainda desconhecida em sua estrutura básica e no seu detalhamento.
Aquele senhor de engenho,
pela sua formação, pela sua inteligência, pode contribuir muito mais para si e
para outros, se concretizar o seu arrependimento na reformulação do próprio
processo evolutivo. Ele poderá reencarnar, por exemplo, como um negro, que
sentirá a ânsia, a paixão de lutar pela libertação de sua raça, de modo que
muitos benefícios poderá trazer para a eliminação do racismo. Se tiver vocação
pela política, poderá lutar de modo perseverante a favor da abolição de
qualquer resquício, nas leis e na cultura, de preconceitos contra a raça negra,
beneficiando assim, indiretamente, aqueles que ele próprio prejudicou em outras
existências. E assim por diante.
As variáveis são muitas, principalmente por que estamos lidando com seres, cuja liberdade volitiva os afasta de qualquer esquema cármico, a não ser que eles mesmos prefiram seguir, por algum processo de culpa ainda muito pouco esclarecido, um caminho onde possam vir a expiar a mesma dor que em outros eles provocaram, a fim de sentir o mal “na mesma pele”. É também um caminho possível, mas que não se constitui em lei, em regra, em um princípio que sirva a todos os seres. Foi o caminho escolhido por determinado Espírito, apenas isso.
Uma mesma causa pode gerar
uma infinidade de efeitos. Isso em relação a objetos. Já em relação às pessoas,
aí a situação se torna ainda mais complexa. A dificuldade de se equacionar, no
caso em questão, o fenômeno palingenésico, se amplia. Ainda mais por que é ele
um fenômeno pra lá de fractal. São muitos os componentes, os fatores de influenciação
extremamente variáveis. Trata-se de uma equação com n incógnitas.
Por aí dá para se perceber
que a visão mesquinha e rasteira do negro como uma criatura supostamente
inferior, apenas por que nele se encontra reencarnado um espírito “culpado”,
não se coaduna com a filosofia espírita, libertária por natureza. É como se
reproduzíssemos o racismo numa nova versão, numa espécie de racismo cármico,
que iria justificar a segregação racial, como foi e ainda é feito em alguns
países. Basta ver os conflitos étnicos que há muitos séculos existem na Índia,
desde o tempo dos brâmanes, passando pela época de Gandhi até hoje. É a
reencarnação a serviço do racismo.
Uma doutrina de liberdade,
como a espírita, não compactua com nenhuma ideologia que vise a discriminação
racial entre os grupos sociais. O sectarismo racial, segundo o Espiritismo,
tende a se tornar coisa do passado. As pessoas e as nações evoluem. Segundo os
Espíritos, “os mundos também se acham submetidos à lei do progresso. Todos
começaram como o vosso, por um estado inferior, e a Terra mesma sofrerá uma
transformação semelhante, tornando-se um paraíso terrestre, quando os homens se
fizerem bons.” À medida que a humanidade melhora em inteligência e moralidade, todas
as formas de preconceito e segregação tenderão a desaparecer definitivamente.
Nesse aspecto, o comentário de Kardec à questão citada é bem oportuno: “Assim,
as raças que atualmente povoam a Terra desaparecerão um dia e serão
substituídas por seres mais e mais perfeitos. Essas raças transformadas
sucederão à atual, como esta sucedeu a outras que eram mais grosseiras.”
Portando, é dever dos
espíritas, imbuídos pelo ideal renovador do Espiritismo, lutar por uma
sociedade mais justa e igualitária, onde o negro e todos os grupos étnicos
oprimidos tenham os seus direitos garantidos e respeitados.
Como afirmou o sociólogo
Florestan Fernandes, o negro é a “pedra de toque da revolução democrática na sociedade
brasileira.” A luta pela verdadeira democracia racial, é uma luta que interessa
não somente ao negro, mas a todos os setores progressistas, inclusive aos
espíritas, que estejam efetivamente comprometidos com o processo de transformação
intelecto-moral da sociedade.
KARDEC ERA RACISTA?
Esta é uma questão que tem
vindo à baila no movimento espírita, em função de alguns textos de Allan Kardec
acerca da raça negra, contidos na Revista Espírita (RE) e em Obras Póstumas.
Na RE de abril de 1862, no
texto intitulado “Frenologia Espiritualista e Espírita Perfectibilidade da Raça
Negra”, Kardec procura relacionar o Espiritismo com a Frenologia, segundo uma
interpretação espiritualista dessa antiga ciência.
No tempo do fundador do
Espiritismo, a Frenologia era uma ciência que estava em voga e consistia no
estudo das faculdades humanas a partir da configuração craniana. Desenvolvida
pelo médico e anatomista alemão Franz Josef Gall (1758-1828), chegou a causar
uma certa polêmica nos meios acadêmicos da época.
Apesar dessa ciência ser
hoje totalmente ultrapassada, interessa-nos algumas conclusões do fundador do Espiritismo.
Nesse texto, Kardec procura
demonstrar que a raça negra é inferior pelo fato dela abrigar Espíritos
imperfeitos, considerando a supremacia do espírito sobre o corpo. Já os
frenologistas, interpretavam essa inferioridade pela ótica do materialismo,
descartando a ideia da alma. Kardec traça uma correlação entre o espírito e o
corpo, concluindo que a raça negra, enquanto etnia, jamais atingiria os níveis
de perfeição moral das raças caucásicas. Por sua vez, os Espíritos encarnados
na raça negra poderiam chegar, segundo ele, ao mesmo nível da caucásica, devido
à Lei de Progresso.
Pela argumentação de Kardec,
nota-se que ele era adepto do Eurocentrismo, ideologia sectária que predominou
no século 19, na Europa, e que considerava a cultura europeia como a mais
evoluída. E, consequentemente, numa correlação étnica, a raça branca caucasiana
seria a raça mais evoluída, superior à negra e à amarela.
Essa colocação torna-se mais
evidente na “Teoria da Beleza”, contida em Obras Póstumas, onde Kardec procura formular
uma teoria estética que se caracterizaria pela configuração de um ideal de
beleza em conformidade com a Lei de Progresso, aplicada no nível da evolução
material. Ele se apoia em um texto de Charles Richard, desconhecido pesquisador
inglês, intitulado “As Revoluções Inevitáveis no Globo e na Humanidade”, que
aborda a tese da perfectibilidade, da evolução formal da raça humana e de sua
beleza fisionômica. Richard cita exemplos comparativos de fisionomias de
personalidades conhecidas da história da humanidade, como Júlio César, Brútus,
Cícero, Lívia, a filha de Agripina, Mossalina, etc. e analisa a fealdade do
homem primitivo, até a relativa beleza do homem moderno.
Aproveitando a contribuição
de Richard, Kardec parte do princípio da influência do Espírito sobre o corpo,
influência intelecto-moral, que se expressa no formato da matéria corporal.
Segundo ele, na medida em que o Espírito evolui, a matéria vai sofrendo as consequências
dessa evolução, de modo que possa se adaptar e se adequar, conformando-se ao
estágio evolutivo do Espírito encarnado. Daí Kardec concluir que o ideal de
beleza seria o dos Espíritos mais elevados, dos Espíritos puros.
Quanto à raça negra - e é
esse o aspecto que nos chama mais a atenção - Kardec a considera primitiva,
imperfeita, feia e antiestética. Muito aquém de um ideal absoluto de beleza.
Na opinião abalizada do
fundador do Espiritismo, sob a ótica da beleza corporal, os brancos são mais
belos e superiores ao negro, cujos “traços grosseiros, os lábios grossos,
acusam a materialidade dos instintos. Podem perfeitamente exprimir as paixões
violentas, mas não se prestariam às nuanças delicadas do sentimento e à
suavidade de um Espírito evoluído.”16 E conclui: “eis porque podemos, sem
fatuidade, julgarmo-nos mais belos que o negro e o hotentote.”
Bastariam esses dois textos
para colocar Kardec em situação delicada perante o movimento negro. Todavia,
ele era um homem de seu tempo e sujeito também às injunções culturais, ao
sistema de valores de sua época. Cabe lembrar ainda que as teses arianistas do
conde Gobineau, citadas no início, lhe são contemporâneas.
Allan Kardec tinha posições
bem reacionárias em relação à mulher, ao socialismo e no caso em questão, ao
negro, como se pode observar em seus escritos na Revista Espírita. Todo homem é
prisioneiro de sua época, e por mais larga a visão que possua, sempre pode-se
notar elementos datados em suas ações e reflexões. O fundador do Espiritismo
não passou incólume a essa regra. Antes dele, na França, já havia a Sociedade
de Amigos do Negro, sendo o líder revolucionário Robespierre (1758-1794), seu
conterrâneo, um dos expoentes na luta contra o racismo, a discriminação racial
e o tráfico de escravos. Esse aspecto da luta humanista dos iluministas, assim
como determinadas reflexões sobre a questão do racismo - bem explícitas na obra
de Jean Jacques Rousseau - infelizmente não foram incorporadas por Kardec,
mesmo tendo sido ele muito influenciado pelas teses iluministas.
Mesmo partindo de um sentido
estético duvidoso, para desembocar numa conclusão ética da tipologia do negro, enquanto
biotipo supostamente inferior ao branco, isso não significa, de modo algum, que
Kardec fosse racista. Isso seria contrário aos seus princípios éticos e
humanistas bem manifestos na sua produção intelectual.
O negro do século 19 não é
igual ao negro de hoje, pois com o advento da civilização e da urbanização das
cidades, os negros africanos e de outros países convivem em grupos sociais
aptos para a encarnação de Espíritos de maior porte intelectual, em função das
leis de afinidade que regem o processo palingenésico.
Há de se considerar ainda
que, no século passado, o conhecimento dos europeus sobre a cultura africana
era escasso. Sociedades africanas de características totêmicas coexistiam nessa
época, com culturas alhures bem organizadas, com uma forma notável de
organização estatal, com rei, ministros, militares e funcionários. O negro não
era tão primitivo assim como pensava Allan Kardec.
A visão kardequiana do negro
tem de ser considerada segundo o contexto histórico em que foi formulada. Seria
incorreto, insistimos, sob o ponto de vista espírita, rotular Allan Kardec de
racista, pura e simplesmente. Essa palavra possui uma carga semântica muito
forte, inadequada para definir suas posições. Seria o mesmo que taxá-lo de
machista, devido a suas posições em relação à mulher ou de direitista e
ultrarreacionário, pelas posições contrárias ao socialismo e ao movimento proletário
francês.
Todavia, não dá para “dourar
a pílula” e ser condescendente com o fundador do Espiritismo. Ele manifestou, explicitamente,
um preconceito em relação ao negro. Longe de ser racista, podemos afirmar que
ele foi preconceituoso para com essa etnia. Mas, por outro lado, não há nenhum
indício de que ele tenha discriminado algum indivíduo ou grupo de origem negra,
seja no movimento espírita ou fora dele.
Há, é claro, uma certa
dificuldade teórica em separar racismo de preconceito racial e discriminação
racial. A princípio, o preconceito e a discriminação raciais seriam uma
decorrência do racismo enquanto ideologia e sistema de pensamento. No entanto,
há de se considerar ainda a brutal diferença entre o comportamento de um membro
da seita racista norte-americana Ku-Klux-Klan e o de um homem comum debochado
que gosta de contar piadas de negro. Um punk skinhead é capaz de espancar e
matar um homem apenas por ser negro ou judeu, enquanto o outro, em função da cultura
de tonalidade racista do qual é subproduto, não passaria da piadinha jocosa e
cheia de preconceito.
Apesar da atitude
preconceituosa de Kardec em relação ao negro, fruto do contexto em que viveu,
sua obra sai ilesa de todas as críticas no sentido ético, de discriminação e
preconceito a determinada etnia. A kardequiana é muito maior do que qualquer
triagem filosófica que possa ser feita, imperfeita como toda obra humana, mas
coerente em seus fundamentos e tão atual a ponto de oferecer à sociedade
elementos indispensáveis na luta contra o racismo.
OS ESPÍRITAS E O RACISMO
A escravidão tem sido
encarada por uma grande parte dos espíritas como uma expiação “cármica”, um
acerto de contas com a Divindade, sem considerar aspectos socioeconômicos e
políticos, e sem perceber a presença da ideologia racista por detrás das
injustiças cometidas contra a raça negra.
Isso pode ser observado na
obra do Espírito Humberto de Campos, “Brasil Coração do Mundo Pátria do
Evangelho”, psicografada pelo médium Francisco Cândido Xavier e lançada em
1938. Esta obra foi tomada como fundamento ideológico e bússola do movimento
espírita oficial brasileiro, especialmente pela Federação Espírita Brasileira
(FEB), em suas atividades missioneiras. Nessa obra é mais do que evidente a
predominância de uma visão distorcida e metafísica da história, como se esta
estivesse subordinada diretamente aos desígnios do “plano espiritual superior”.
Narra o Espírito Humberto de
Campos que um tal de anjo Ismael, considerado por ele como o suposto guia
espiritual do Brasil, em uma de suas audiências oficiais com o “Cordeiro de
Deus” (Jesus), deixa transparecer sua “angelical amargura”, ao expor ao
“Cordeiro”, sua preocupação para com a escravidão negra. O “Cordeiro”, com toda
sua magnânima serenidade, acalma Ismael, dizendo-lhe que “se não podemos
tolher-lhes a liberdade, também não podemos esquecer que existe o instituto
imortal da justiça divina, onde cada qual receberá de conformidade com os seus
atos.
Havia eu determinado que a
Terra do Cruzeiro se povoasse de raças humildes do planeta, buscando-se a
colaboração dos povos sofredores das regiões africanas; todavia, para que essa
cooperação fosse efetivada sem o atrito das armas, aproximei Portugal daquelas
raças sofredoras, sem violências de qualquer natureza. A colaboração africana
deveria, pois, verificar-se sem abalos perniciosos, no capítulo das minhas
amorosas determinações.”
Afirma o “Cordeiro” que
devido “à educação condenável e deficiente”19 do homem branco, seus desígnios
não estavam sendo cumpridos, e conclui: “os que praticarem o nefando comércio
sofrerão, igualmente, o mesmo martírio, nos dias do futuro, quando forem também
vendidos e flagelados em identidade de circunstâncias (...) Colocarei a minha luz
sobre essas sombras, amenizando tão dolorosas crueldades. Prossegue com as tuas
renúncias em favor do Evangelho e confia na vitória da Providência Divina.“
Ismael, insatisfeito, ainda
insiste e pergunta ao “divino Cordeiro”, se não haveria possibilidade de
“orientar a política dominante, no sentido de se purificar o ambiente moral da
Terra de Santa Cruz.” O “Cordeiro” responde que a ninguém cabe cercear os atos
de outrem e repete: “cada um será justiçado na pauta de suas próprias obras.”
Faz ainda referência aos portugueses colonizadores como o povo remanescente dos
antigos fenícios da antiguidade, hoje afetados pelo orgulho oriundo da riqueza
acumulada com as conquistas, e finaliza sua pregação dizendo a Ismael: “se não
nos é possível cercear o arbítrio livre das almas, poderemos mudar o curso dos
acontecimentos, a fim de que o povo lusitano aprenda, na dor e na miséria, as
lições sagradas da experiência e da vida.”
Encerrada a audiência,
Ismael retorna à luta, “cheio de fervorosa coragem, e os acontecimentos foram
modificados” pelo “poder magnânimo e misericordioso” do Cristo, o “Cordeiro de
Deus”.
Conforme a narração do
Espírito Humberto de Campos, foi dos “ombros flagelados” dos negros que
nasceram “lições comovedoras, imunizando todos os espíritos contra os excessos
do imperialismo e do orgulho injustificáveis das outras nações do planeta,
dotando-se a alma brasileira dos mais belos sentimentos de fraternidade, de
ternura e de perdão.”
E por que teriam os negros
sofrido tanto com a escravidão? Muito simples. Os escravos seriam, segundo
Humberto, “os antigos batalhadores das cruzadas, senhores feudais da Idade
Média, padres e inquisidores, espíritos rebeldes e revoltados, perdidos nos
caminhos cheios da treva das suas consciências polutas.”
Seguindo a lógica desse
raciocínio “cármico”, os negros sul-africanos, vítimas durante muitas décadas
do apartheid, do racismo legalizado, seriam quase sem sombra de dúvida, os
traficantes de escravos, os senhores de engenho, os capitães do mato, todos
agora reencarnados nesse país, para sofrerem as consequências de seus próprios
atos. Posição insustentável, como vimos, à luz da filosofia científica do
Espiritismo.
Interessante é que Humberto
de Campos não faz menção aos índios, vítimas de hediondo genocídio causado
pelos bandeirantes portugueses. E os milhões de povos indígenas trucidados
pelos espanhóis? E a cultura inca, maia e asteca, todas trucidadas também pelos
imperialistas de Castela? Teriam sido algozes do passado? Essa interpretação
contábil do processo evolutivo dos seres e dos povos, perde-se numa cadeia sem
fim, num emaranhado de projeções mecanicistas das circunstâncias históricas.
Quem teria atirado a primeira pedra? Aonde a origem de todo esse conflito existencial?
No movimento espírita, as
análises que têm sido feitas da questão do racismo e da escravidão negra,
deixam transparecer as influências da teoria arianista, da visão positivista e
idealista da história, que desconsidera os fatos em sua dinâmica, em suas
contradições. É só observar a grande maioria dos periódicos espíritas, que em
1988, ano do centenário da abolição, publicaram chamadas, ilustrações e artigos
de consistência duvidosa. Muitas destas publicações deram em sua primeira
página, a foto da “Redentora”, da Princesa Isabel, considerada a libertadora
dos escravos, mas que na verdade, no processo de desagregação da ordem escravista,
teve um papel subalterno e secundário. Já Humberto sustenta que a “Redentora”
foi verdadeiramente missionária, que reencarnou “com a tarefa definida no trabalho
abençoado da abolição.” Talvez, devido a essa tarefa supostamente assumida por
Isabel no mundo dos Espíritos, é que D. Pedro II se afasta do trono “por
motivos de saúde”, deixando-o vago (!?). Na narração de Humberto, nota-se que
os Espíritos teriam armado um esquema de bastidores, a fim de afastar o
imperador e permitir a entrada, novamente em cena, da princesa pela terceira
vez, para assinar A Lei Áurea. É até possível que os Espíritos tenham provocado
o afastamento de D. Pedro II do trono. No entanto, é pura ingenuidade
considerar a Princesa Isabel como a grande protagonista desse cenário
histórico. Se ela não tivesse reencarnado não faria muita diferença. Pela
própria força das coisas, segundo a expressão dos Espíritos, a escravidão
negra, em 1888, já estava dando os seus últimos suspiros.
Costuma-se negar que haja
qualquer tipo de influência racista no movimento espírita. No entanto, temos de
considerar que esse é um movimento onde a classe média predomina, trazendo
consigo para o seu interior, todos os preconceitos típicos dessa camada social.
Sem esquecer que na classe média, a quantidade de brancos é bem pequena.
A classe dirigente do
movimento espírita brasileiro é, em sua grande maioria, de origem branca. Os
negros são sempre minoria. Quantos dirigentes de centros espíritas e sessões
mediúnicas não têm negado a palavra a determinados Espíritos por se
apresentarem como índios e pretos velhos, julgando-os inferiores, devido à
ascendência étnica de sua encarnação pregressa? O preto velho é o que mais
sofre. Muitas receitas, ervas e chás que essa entidade receita, quando se manifesta
em terreiros de umbanda, só adquiriram o seu devido valor quando obtiveram a
chancela da medicina oficial.
Comunicação no centro
espírita, nem pensar, mesmo que seja sem os aparatos típicos a que ele está
acostumado (charuto, marafo, roupa branca, vela, etc.). A respeito da
manifestação de índios e pretos velhos nas sessões mediúnicas, o filósofo
espírita Herculano Pires tece interessante abordagem e analisa o espanto de
algumas pessoas impregnadas, segundo ele, “de antigos preconceitos”. Herculano
considera também a possibilidade de que tais fenômenos ocorrem no meio espírita
como “uma ação programada no sentido de mostrar a iniquidade das discriminações
raciais.”
O movimento espírita, como
qualquer outro movimento, seja ele qual for, sofre as influências do meio
cultural. Na nossa cultura, o sentimento racista se expressa, como vimos, das
mais variadas formas. Ela está toda impregnada por este sentimento, que
condiciona os valores e o comportamento dos grupos sociais. Não há no movimento
espírita o racismo manifesto. Ele não é um movimento como o dos skinheads, por
exemplo, que se engajam em uma cruzada segregacionista contra os negros, judeus
e nordestinos. Todavia, as pessoas que o compõem se acham mergulhadas numa
atmosfera tal que as conduz a comportamentos que poderíamos classificar como
racistas. Apesar de serem ideologicamente contra qualquer manifestação racista,
podem assumir, sem perceberem, comportamentos nitidamente discriminatórios em
relação ao negro, até de modo inconsciente.
Pode-se citar o exemplo do
conhecido orador carioca Raul Teixeira, de origem negra, chamado de divaldo
preto, dadas as semelhanças de sua oratória e gesticulação com a do
conferencista baiano Divaldo Pereira Franco. É claro, que na maioria das vezes,
esse apelido é usado de modo aparentemente carinhoso, porém, já presenciamos
situações em que era evidente o preconceito racial, pelo modo jocoso como ele
foi usado.
Com o advento dos movimentos
de consciência negra, religiões afro-brasileiras como a Umbanda, o Candomblé, o
Carimbó, etc. passaram a ser mais valorizadas e encaradas como autênticas
manifestações da religiosidade nacional, em que pese as influências do
cristianismo e do Espiritismo sobre elas.
Afirma o jornalista Ubiratan
Machado que “ao lado do kardecismo, desenvolveu-se um vigoroso espiritismo
popular. Em alguns momentos, a vitalidade deste chegou a parecer uma ameaça,
porém, era apenas aparente. O caminho dos vários espiritismos, apesar dos
atalhos de ligação e das influências recíprocas, sempre foram distintos.”
Essa distinção, colocada por
Ubiratan Machado quanto às relações entre o Espiritismo e as religiões
sincréticas, entre os vários espiritismos, atualmente ganha outras nuances com
o movimento negro, a ponto de se estabelecerem nítidas peculiaridades entre Umbanda
e Espiritismo, por exemplo, em nível terminológico e semântico. Isso porque,
para muitos líderes negros, ”Espiritismo é coisa de branco, é elitista, e foi
fundado por um branco europeu”. E a Umbanda, uma religião de negros, uma
religião de massas. Através dela o povo tem livre acesso à manifestação
mediúnica, enquanto que o Espiritismo, pela sua própria natureza filosófico
científica, confere a essas manifestações um tipo de tratamento diferenciado,
metodológico e bem mais reservado.
De certo modo, o avanço do
movimento negro tem uma contrapartida favorável à divulgação do Espiritismo. Na
Bahia, por exemplo, onde os movimentos são bem organizados (Olodum, Afoxé
Filhos de Gandhi, Timbalada, etc.), não existe a confusão que se faz, no sul do
Brasil, entre Espiritismo e Umbanda, principalmente porque a religião
afro-brasileira lá é bem desenvolvida e disseminada. Enquanto que no sul, além
do preconceito, há muita desinformação acerca desse tema.
RACISMO ATÁVICO
A raça adâmica, constituída
por Espíritos emigrados de outros planetas, tese primeiramente desenvolvida por
Allan Kardec em A Gênese (cap. XI), ganhou desdobramentos através da obra do
Espírito Emmanuel e do fundador da Aliança Espírita Evangélica, Edgard Armond.
Para Emmanuel, foi com esses
Espíritos exilados de Capela, uma estrela da constelação de Cocheiro, “que nasceram
no orbe os ascendentes das raças brancas.” As raças negra e amarela,
autóctones, já existiam antes da branca, teoria reafirmada por Edgard Armond em
sua obra, Os Exilados de Capela, conforme informações colhidas do esoterismo
mas, segundo ele, através da inspiração. Para Armond, que se fundamenta
claramente na tradição esotérica, a quinta raça, a branca, seria “a última, no
tempo, e a mais perfeita que apareceu na Terra, como fruto natural de um longo
processo evolutivo”. Estes seriam os aryas, “os homens da gloriosa quinta
raça.”
O fundador do Espiritismo
não faz referência explícita ao surgimento da raça branca, a não ser na
vinculação da raça adâmica à figura de Adão, daí esse nome. “Mais adiantada do
que as que a tinham precedido neste planeta, a raça adâmica é, com efeito, a
mais inteligente, a que impele ao progresso todas as outras. A Gênese no-la
mostra, desde os seus primórdios, industriosa, apta às artes e às ciências, sem
haver passado aqui pela infância espiritual, o que não se dá com as raças
primitivas.” Kardec considera as raças negras, mongólicas e caucásicas, como de
origem própria, nascidas, segundo ele, simultaneamente ou de modo sucessivo, em
diversos pontos do planeta. Tese esta que corrobora as assertivas de O Livro
dos Espíritos, como se vê no item IV, Diversidade das Raças Humanas (Livro
Primeiro, cap. III - Criação) , que reproduzimos a seguir:
52. De onde vem as
diferenças físicas e morais que distinguem as variedades de raças humanas na
Terra?
- Do
clima, da vida e dos hábitos. Dá-se o mesmo que se daria com duas crianças da
mesma mãe, que, educadas uma longe da outra e de maneira diferente, não se
assemelhassem em nada quanto ao moral.
53. O homem apareceu em
muitos pontos do globo?
- Sim, e em diversas épocas, e é essa uma das causas da diversidade das raças;
depois, o homem se dispersou pelos diferentes climas, e aliando-se os de uma
raça aos de outras, formaram-se novos tipos.
53-a. Essas diferenças representam
espécies distintas?
- Certamente não, pois todos pertencem à mesma família. As variedades do mesmo
fruto acaso não pertencem à mesma espécie?
54. Se a espécie humana não
procede de um só tronco, não devem os homens deixar de considerar-se irmãos?
- Todos os homens são irmãos em Deus, porque são animados pelo espírito e tendem
para o mesmo alvo. Quereis sempre tomar as palavras ao pé da letra.
Admitindo-se essa teoria, é
bem possível que, por causa das características intelecto-morais dos capelinos,
bem superiores à dos Espíritos já reencarnados na Terra, tenha surgido uma
espécie de racismo atávico, seria um racismo primordial, que viria talvez
justificar a ideologia de superioridade racial para esses Espíritos, facilmente
perceptível nas castas da Índia e na “vaidosa aristocracia espiritual” dos
hebreus, conforme a expressão emmanuelina.
Todavia, sob um outro
enfoque, poderíamos considerar essa teoria como corolário de uma certa dose de
preconceito racial contra a raça negra e a amarela, cuja origem étnica seria
supostamente inferior à branca, um biotipo mais evoluído(?) e adequado à
encarnação de Espíritos mais desenvolvidos.
Edgard Armond e Emmanuel não
explicam como surgiu, em termos genéticos e biofísicos, a raça branca. E em que
sentido ela seria mais evoluída tipologicamente às demais raças. Por ora,
faltam maiores informações para que esta teoria tenha a fundamentação desejada
por muitos de seus adeptos mais extremistas, cuja formulação se aproxima inegavelmente
da teoria arianista de Gobineau e do Eurocentrismo.
Isto posto, há outro aspecto
que é interessante observar. Trata-se da mentalidade racista que certos povos e
Espíritos carregam e trazem consigo ao reencarnarem, seja por orgulho ou
autopreservação.
As informações dos Espíritos
contribuem para ilustrar a característica de certos povos, como os hebreus, os
hindus-arianos, os egípcios, etc. pois, através de estudos sociológicos e
antropológicos, pôde-se notar, no seu sistema de valores, a presença de uma
ideologia racista. Em nossos dias temos exemplos marcantes de nações racistas,
em função das circunstâncias sociais e econômicas, e do nível moral dos
Espíritos reencarnados. Mesmo com a queda do regime do apartheid, a Africa do
Sul é um exemplo a ser lembrado. E isso ocorre também nos grupos sociais, como
é o caso dos sionistas, de alguns esquadrões de extermínio, dos antissemitas e
tantos outros que se engajam numa luta sectária contra determinadas etnias ou
grupos sociais. Os skinheads, exemplo já citado, é um dos grupos que mais
explicitam a incorporação da ideologia racista. Tanto que esses punks
antissemitas incorporaram, em seu comportamento, toda a simbologia nazista e
leem assiduamente a obra My Kempf, escrita por Adolph Hitler, o célebre líder
dos nazistas. Não estariam aí nazistas reencarnados?
CONCLUSÃO
O racismo é um desse
sistemas que tendem a desaparecer, na medida em que a humanidade evolui e
adquire novos conhecimentos, valores e virtudes que não fiquem somente no
papel, ou no mero discurso de religiosos hipócritas e humanistas de segunda
classe.
No Brasil, a discriminação
racial já é caso de polícia. Sob o ponto de vista ético, o preconceito e a
discriminação raciais se tornaram intoleráveis. A legislação prevê penalidades
àqueles que desrespeitarem o direito de um cidadão, apenas por pertencer a
determinada etnia, considerada “inferior”. Mesmo com o crescimento de grupos
antissemitas como os neonazistas, no nosso país e no mundo, não há como
retroceder a antigos valores espúrios, que tanto mal trouxeram à humanidade.
Há muito ainda que se
avançar nesse campo. Somente o próprio negro poderá conquistar seu espaço na
cultura, em todas as áreas do conhecimento. Ninguém fará por ele aquilo que
deve ser feito para o seu próprio bem estar. Do mesmo modo, as etnias da Europa
Oriental, da antiga “cortina de ferro”, terão de se organizar se quiserem que
sua voz seja ouvida e seus direitos garantidos, bem como as comunidades negras
de toda a África, e de todos os grupos étnicos discriminados em qualquer parte
do planeta.
O racismo, talvez por ter
sido considerado como uma questão menor pelo movimento espírita, é um tema
pouco abordado. A bibliografia é escassa. Na década de 40, o filósofo espírita
David Grossvater, da Venezuela, de ascendência judaica, em alguns momentos de
sua obra, ainda desconhecida no Brasil, chegou a abordar o tema. Os pensadores espíritas
brasileiros Herculano Pires e Deolindo Amorim, de “en passant”, também se referiram ao racismo, mas sem se debruçar
com maior profundidade.
A questão das minorias, a
questão da mulher, dos homossexuais, das etnias discriminadas, dentre outras,
não podem ser desprezadas. Isso significa inserir o Espiritismo na modernidade
e assim, enfrentar toda a problemática existencial de nosso tempo, sem o receio
de reavaliar _ segundo uma releitura crítica, contextualizada e qualitativa _ determinadas
posições de Allan Kardec e dos Espíritos que participaram da estruturação da
filosofia espírita.


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