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Racismo e espiritismo – parte 2

O ESPIRITISMO E O RACISMO

A destruição dos preconceitos de casta e de cor é um dos objetivos do Espiritismo. Isso é bem claro na kardequiana (ou Kardecista).

O progresso da civilização passa, necessariamente, pela abolição de toda e qualquer forma de preconceito. O Espiritismo, “destruindo os preconceitos de seita, de casta e de cor, ensina aos homens a grande solidariedade que os deve unir como irmãos.”


Nesse aspecto, do progresso da Humanidade, o Espiritismo pode ter uma influência muito importante, devido à ampla visão que oferece, do homem, da sociedade e do cosmos. Antes de se achar sujeito a determinada cultura, nacionalidade, etnia ou religião, o homem é um ser cósmico, um cidadão do universo. Esse princípio, se bem compreendido, faz ver a realidade sob uma outra ótica, sem os preconceitos generalizados que se encontram ainda arraigados na alma humana. Para os Espíritos elevados, “a pátria é o Universo; na Terra, é aquela em que possuem maior número de pessoas simpáticas.”

Pelo entendimento dos mecanismos que regem a lei da reencarnação, a superioridade que certos grupos étnicos atribuem a si torna-se insustentável e até ridícula. Esse tipo de postura discriminatória, existente nas relações entre os diferentes grupos étnicos, ao lado de diversos fatores de ordem política e econômica, tem gerado as desigualdades sociais no nosso planeta, constituindo-se num enorme obstáculo para a construção de uma sociedade mais fraterna e igualitária. Afirmaram os Espíritos a Allan Kardec que essas desigualdades um dia desaparecerão, “juntamente com a predominância do orgulho e do egoísmo, restando tão somente a desigualdade de mérito. Chegará um dia em que os membros da grande família dos filhos de Deus não mais se olharão como de sangue mais ou menos puro, pois somente o Espírito é mais puro ou menos puro, e isso não depende da posição social.”

Segundo Kardec, todos os homens “são submetidos às mesmas leis naturais, todos nascem com a mesma fragilidade, estão sujeitos às mesmas dores e o corpo do rico se destrói como o do pobre. Deus não concedeu, portanto, superioridade natural a nenhum homem, nem pelo nascimento, nem pela morte, todos são iguais diante d’Ele.”

A mentalidade racista produziu, na história da humanidade, situações extremadas de discriminação racial, como a escravidão dos negros africanos, considerada pelo Espiritismo como sendo contrária à Natureza, “pois assemelha o homem ao bruto e o degrada moral e fisicamente.” “Os homens têm considerado, há muito, certas raças humanas como animais domesticáveis, munidos de braços e de mãos, e se julgam no direito de vender os seus membros como bestas de carga. Consideram-se de sangue mais puro. Insensatos, que não enxergam além da matéria! Não é o sangue que deve ser mais ou menos puro, mas o Espírito.”

A ideia de que o homem possa encarnar como branco, negro, mulato ou índio, estabelece uma ruptura com o preconceito e a discriminação raciais. Tanto que até hoje, na Inglaterra, muitos adeptos do Neo-espiritualismo rejeitam a tese da reencarnação, por não admitirem a possibilidade de terem tido encarnações em posições inferiores quanto à raça e à condição social. Afinal, como se sentiria um indivíduo de mentalidade racista encarnado em uma raça que considere inferior? Nesse sentido, as questões que reproduzimos abaixo são bem elucidativas.

205. Segundo certas pessoas, a doutrina da reencarnação parece destruir os laços de família, fazendo-os remontar às existências anteriores.

Ela os amplia, em vez de destruí-los. Baseando-se o parentesco em afeições anteriores, os laços que unem os membros de uma mesma família são menos precários. A reencarnação amplia os deveres de fraternidade, pois no vosso vizinho ou no vosso criado pode encontrar-se um Espírito que foi de vosso sangue.

205-a. Ela diminui, entretanto, a importância que alguns atribuem à filiação, porque se pode ter tido como pai um Espírito que pertencia a uma outra raça, ou que tivesse vivido em condição bem diversa?

É verdade, mas essa importância se baseia no orgulho. O que a maioria honra nos antepassados são os títulos, a classe, a fortuna. Este coraria de haver tido como avô um sapateiro honesto, e se vangloria de descender de um gentil-homem debochado. Mas digam ou façam o que quiserem, não impedirão que as coisas sejam como são, porque Deus não regulou as leis da Natureza pela vossa vaidade.”

A diversidade das raças, condição natural do aparecimento do homem na Terra, resultado “do clima, da vida e dos hábitos”, não significa, de modo algum, que os homens estabeleçam juízos de valor discriminatório, quanto à origem étnica de determinados grupos sociais. Para o Espiritismo, todos os homens “são irmãos em Deus, porque são animados pelo mesmo espírito e tendem para o mesmo alvo.”

O preconceito e a discriminação raciais constituem também o grande conjunto de circunstâncias existenciais a que os Espíritos reencarnantes estão sujeitos. Um Espírito, reencarnado num corpo de origem negra, estará sujeito à discriminação e isso lhe será uma condição, uma contingência evolutiva a ser superada. “Para uns pode ser uma expiação, para outros uma missão”, uma nova oportunidade de aprendizado, já que as experiências que ele experimentará como negro, serão bem diferentes das de outro que reencarne como branco, em função das desigualdades sociais.

Essas desigualdades são um mal que precisa ser eliminado. Todavia, devido à Lei de Progresso, também são um bem. Ou seja, são utilizadas sabiamente pela Natureza, no aprimoramento intelecto-moral dos Espíritos.

Portanto, dentro da concepção espírita, não se sustentam visões fatalistas, “cármicas”, que visualizem Espíritos reencarnados em corpos de origem negra como culpados, algozes do passado. A culpa, se houver, será apenas uma condição psicológica, imposta pela própria consciência do Espírito reencarnante, sem relação alguma com arbitrariedades supostamente delegadas pelo “plano espiritual superior”.

São essas concepções fatalistas, baseadas na culpa e no pecado, que levam muitos espíritas e Espíritos a considerarem os escravos negros como inquisidores, cruzados e senhores feudais reencarnados, ou judeus massacrados pelos nazistas como hebreus reencarnados. Essas concepções têm mais a ver com a formação religiosa de certos espíritas e Espíritos do que com a visão evolucionista do Espiritismo. Trata-se de uma concepção distorcida da reencarnação que, ao invés de servir como um poderoso instrumento de compreensão do processo evolutivo dos seres e das coisas, funciona como fator de alienação, de ocultamento da realidade.

Com que finalidade um senhor de engenho, por exemplo, tem de reencarnar como negro e sofrer as mesmas dores que fez os escravos sob o seu poder sofrerem? Seria assim o mecanismo da reencarnação?

Os seres humanos não são coisas, objetos que, sujeitos a uma lei de causa e efeito independente de sua realidade intelecto-moral, tenham que se submeter a reações esquemáticas, cartesianas. Há uma lógica no processo palingenésico, mas ela está longe de ser uma lógica mecanicista. Ao contrário, a concepção espírita da palingenesia nos leva a pensar o processo evolutivo como um continuum caótico, dialético, contraditório. Isso não significa que inexista uma ordem, necessária e inexorável, ainda desconhecida em sua estrutura básica e no seu detalhamento.

Aquele senhor de engenho, pela sua formação, pela sua inteligência, pode contribuir muito mais para si e para outros, se concretizar o seu arrependimento na reformulação do próprio processo evolutivo. Ele poderá reencarnar, por exemplo, como um negro, que sentirá a ânsia, a paixão de lutar pela libertação de sua raça, de modo que muitos benefícios poderá trazer para a eliminação do racismo. Se tiver vocação pela política, poderá lutar de modo perseverante a favor da abolição de qualquer resquício, nas leis e na cultura, de preconceitos contra a raça negra, beneficiando assim, indiretamente, aqueles que ele próprio prejudicou em outras existências. E assim por diante.


As variáveis são muitas, principalmente por que estamos lidando com seres, cuja liberdade volitiva os afasta de qualquer esquema cármico, a não ser que eles mesmos prefiram seguir, por algum processo de culpa ainda muito pouco esclarecido, um caminho onde possam vir a expiar a mesma dor que em outros eles provocaram, a fim de sentir o mal “na mesma pele”. É também um caminho possível, mas que não se constitui em lei, em regra, em um princípio que sirva a todos os seres. Foi o caminho escolhido por determinado Espírito, apenas isso.

Uma mesma causa pode gerar uma infinidade de efeitos. Isso em relação a objetos. Já em relação às pessoas, aí a situação se torna ainda mais complexa. A dificuldade de se equacionar, no caso em questão, o fenômeno palingenésico, se amplia. Ainda mais por que é ele um fenômeno pra lá de fractal. São muitos os componentes, os fatores de influenciação extremamente variáveis. Trata-se de uma equação com n incógnitas.

Por aí dá para se perceber que a visão mesquinha e rasteira do negro como uma criatura supostamente inferior, apenas por que nele se encontra reencarnado um espírito “culpado”, não se coaduna com a filosofia espírita, libertária por natureza. É como se reproduzíssemos o racismo numa nova versão, numa espécie de racismo cármico, que iria justificar a segregação racial, como foi e ainda é feito em alguns países. Basta ver os conflitos étnicos que há muitos séculos existem na Índia, desde o tempo dos brâmanes, passando pela época de Gandhi até hoje. É a reencarnação a serviço do racismo.

Uma doutrina de liberdade, como a espírita, não compactua com nenhuma ideologia que vise a discriminação racial entre os grupos sociais. O sectarismo racial, segundo o Espiritismo, tende a se tornar coisa do passado. As pessoas e as nações evoluem. Segundo os Espíritos, “os mundos também se acham submetidos à lei do progresso. Todos começaram como o vosso, por um estado inferior, e a Terra mesma sofrerá uma transformação semelhante, tornando-se um paraíso terrestre, quando os homens se fizerem bons.” À medida que a humanidade melhora em inteligência e moralidade, todas as formas de preconceito e segregação tenderão a desaparecer definitivamente. Nesse aspecto, o comentário de Kardec à questão citada é bem oportuno: “Assim, as raças que atualmente povoam a Terra desaparecerão um dia e serão substituídas por seres mais e mais perfeitos. Essas raças transformadas sucederão à atual, como esta sucedeu a outras que eram mais grosseiras.”

Portando, é dever dos espíritas, imbuídos pelo ideal renovador do Espiritismo, lutar por uma sociedade mais justa e igualitária, onde o negro e todos os grupos étnicos oprimidos tenham os seus direitos garantidos e respeitados.

Como afirmou o sociólogo Florestan Fernandes, o negro é a “pedra de toque da revolução democrática na sociedade brasileira.” A luta pela verdadeira democracia racial, é uma luta que interessa não somente ao negro, mas a todos os setores progressistas, inclusive aos espíritas, que estejam efetivamente comprometidos com o processo de transformação intelecto-moral da sociedade.

KARDEC ERA RACISTA?

Esta é uma questão que tem vindo à baila no movimento espírita, em função de alguns textos de Allan Kardec acerca da raça negra, contidos na Revista Espírita (RE) e em Obras Póstumas.

Na RE de abril de 1862, no texto intitulado “Frenologia Espiritualista e Espírita Perfectibilidade da Raça Negra”, Kardec procura relacionar o Espiritismo com a Frenologia, segundo uma interpretação espiritualista dessa antiga ciência.

No tempo do fundador do Espiritismo, a Frenologia era uma ciência que estava em voga e consistia no estudo das faculdades humanas a partir da configuração craniana. Desenvolvida pelo médico e anatomista alemão Franz Josef Gall (1758-1828), chegou a causar uma certa polêmica nos meios acadêmicos da época.

Apesar dessa ciência ser hoje totalmente ultrapassada, interessa-nos algumas conclusões do fundador do Espiritismo.

Nesse texto, Kardec procura demonstrar que a raça negra é inferior pelo fato dela abrigar Espíritos imperfeitos, considerando a supremacia do espírito sobre o corpo. Já os frenologistas, interpretavam essa inferioridade pela ótica do materialismo, descartando a ideia da alma. Kardec traça uma correlação entre o espírito e o corpo, concluindo que a raça negra, enquanto etnia, jamais atingiria os níveis de perfeição moral das raças caucásicas. Por sua vez, os Espíritos encarnados na raça negra poderiam chegar, segundo ele, ao mesmo nível da caucásica, devido à Lei de Progresso.

Pela argumentação de Kardec, nota-se que ele era adepto do Eurocentrismo, ideologia sectária que predominou no século 19, na Europa, e que considerava a cultura europeia como a mais evoluída. E, consequentemente, numa correlação étnica, a raça branca caucasiana seria a raça mais evoluída, superior à negra e à amarela.

Essa colocação torna-se mais evidente na “Teoria da Beleza”, contida em Obras Póstumas, onde Kardec procura formular uma teoria estética que se caracterizaria pela configuração de um ideal de beleza em conformidade com a Lei de Progresso, aplicada no nível da evolução material. Ele se apoia em um texto de Charles Richard, desconhecido pesquisador inglês, intitulado “As Revoluções Inevitáveis no Globo e na Humanidade”, que aborda a tese da perfectibilidade, da evolução formal da raça humana e de sua beleza fisionômica. Richard cita exemplos comparativos de fisionomias de personalidades conhecidas da história da humanidade, como Júlio César, Brútus, Cícero, Lívia, a filha de Agripina, Mossalina, etc. e analisa a fealdade do homem primitivo, até a relativa beleza do homem moderno.

Aproveitando a contribuição de Richard, Kardec parte do princípio da influência do Espírito sobre o corpo, influência intelecto-moral, que se expressa no formato da matéria corporal. Segundo ele, na medida em que o Espírito evolui, a matéria vai sofrendo as consequências dessa evolução, de modo que possa se adaptar e se adequar, conformando-se ao estágio evolutivo do Espírito encarnado. Daí Kardec concluir que o ideal de beleza seria o dos Espíritos mais elevados, dos Espíritos puros.

Quanto à raça negra - e é esse o aspecto que nos chama mais a atenção - Kardec a considera primitiva, imperfeita, feia e antiestética. Muito aquém de um ideal absoluto de beleza.

Na opinião abalizada do fundador do Espiritismo, sob a ótica da beleza corporal, os brancos são mais belos e superiores ao negro, cujos “traços grosseiros, os lábios grossos, acusam a materialidade dos instintos. Podem perfeitamente exprimir as paixões violentas, mas não se prestariam às nuanças delicadas do sentimento e à suavidade de um Espírito evoluído.”16 E conclui: “eis porque podemos, sem fatuidade, julgarmo-nos mais belos que o negro e o hotentote.”

Bastariam esses dois textos para colocar Kardec em situação delicada perante o movimento negro. Todavia, ele era um homem de seu tempo e sujeito também às injunções culturais, ao sistema de valores de sua época. Cabe lembrar ainda que as teses arianistas do conde Gobineau, citadas no início, lhe são contemporâneas.

Allan Kardec tinha posições bem reacionárias em relação à mulher, ao socialismo e no caso em questão, ao negro, como se pode observar em seus escritos na Revista Espírita. Todo homem é prisioneiro de sua época, e por mais larga a visão que possua, sempre pode-se notar elementos datados em suas ações e reflexões. O fundador do Espiritismo não passou incólume a essa regra. Antes dele, na França, já havia a Sociedade de Amigos do Negro, sendo o líder revolucionário Robespierre (1758-1794), seu conterrâneo, um dos expoentes na luta contra o racismo, a discriminação racial e o tráfico de escravos. Esse aspecto da luta humanista dos iluministas, assim como determinadas reflexões sobre a questão do racismo - bem explícitas na obra de Jean Jacques Rousseau - infelizmente não foram incorporadas por Kardec, mesmo tendo sido ele muito influenciado pelas teses iluministas.

Mesmo partindo de um sentido estético duvidoso, para desembocar numa conclusão ética da tipologia do negro, enquanto biotipo supostamente inferior ao branco, isso não significa, de modo algum, que Kardec fosse racista. Isso seria contrário aos seus princípios éticos e humanistas bem manifestos na sua produção intelectual.

O negro do século 19 não é igual ao negro de hoje, pois com o advento da civilização e da urbanização das cidades, os negros africanos e de outros países convivem em grupos sociais aptos para a encarnação de Espíritos de maior porte intelectual, em função das leis de afinidade que regem o processo palingenésico.

Há de se considerar ainda que, no século passado, o conhecimento dos europeus sobre a cultura africana era escasso. Sociedades africanas de características totêmicas coexistiam nessa época, com culturas alhures bem organizadas, com uma forma notável de organização estatal, com rei, ministros, militares e funcionários. O negro não era tão primitivo assim como pensava Allan Kardec.

A visão kardequiana do negro tem de ser considerada segundo o contexto histórico em que foi formulada. Seria incorreto, insistimos, sob o ponto de vista espírita, rotular Allan Kardec de racista, pura e simplesmente. Essa palavra possui uma carga semântica muito forte, inadequada para definir suas posições. Seria o mesmo que taxá-lo de machista, devido a suas posições em relação à mulher ou de direitista e ultrarreacionário, pelas posições contrárias ao socialismo e ao movimento proletário francês.

Todavia, não dá para “dourar a pílula” e ser condescendente com o fundador do Espiritismo. Ele manifestou, explicitamente, um preconceito em relação ao negro. Longe de ser racista, podemos afirmar que ele foi preconceituoso para com essa etnia. Mas, por outro lado, não há nenhum indício de que ele tenha discriminado algum indivíduo ou grupo de origem negra, seja no movimento espírita ou fora dele.

Há, é claro, uma certa dificuldade teórica em separar racismo de preconceito racial e discriminação racial. A princípio, o preconceito e a discriminação raciais seriam uma decorrência do racismo enquanto ideologia e sistema de pensamento. No entanto, há de se considerar ainda a brutal diferença entre o comportamento de um membro da seita racista norte-americana Ku-Klux-Klan e o de um homem comum debochado que gosta de contar piadas de negro. Um punk skinhead é capaz de espancar e matar um homem apenas por ser negro ou judeu, enquanto o outro, em função da cultura de tonalidade racista do qual é subproduto, não passaria da piadinha jocosa e cheia de preconceito.

Apesar da atitude preconceituosa de Kardec em relação ao negro, fruto do contexto em que viveu, sua obra sai ilesa de todas as críticas no sentido ético, de discriminação e preconceito a determinada etnia. A kardequiana é muito maior do que qualquer triagem filosófica que possa ser feita, imperfeita como toda obra humana, mas coerente em seus fundamentos e tão atual a ponto de oferecer à sociedade elementos indispensáveis na luta contra o racismo.

OS ESPÍRITAS E O RACISMO

A escravidão tem sido encarada por uma grande parte dos espíritas como uma expiação “cármica”, um acerto de contas com a Divindade, sem considerar aspectos socioeconômicos e políticos, e sem perceber a presença da ideologia racista por detrás das injustiças cometidas contra a raça negra.

Isso pode ser observado na obra do Espírito Humberto de Campos, “Brasil Coração do Mundo Pátria do Evangelho”, psicografada pelo médium Francisco Cândido Xavier e lançada em 1938. Esta obra foi tomada como fundamento ideológico e bússola do movimento espírita oficial brasileiro, especialmente pela Federação Espírita Brasileira (FEB), em suas atividades missioneiras. Nessa obra é mais do que evidente a predominância de uma visão distorcida e metafísica da história, como se esta estivesse subordinada diretamente aos desígnios do “plano espiritual superior”.

Narra o Espírito Humberto de Campos que um tal de anjo Ismael, considerado por ele como o suposto guia espiritual do Brasil, em uma de suas audiências oficiais com o “Cordeiro de Deus” (Jesus), deixa transparecer sua “angelical amargura”, ao expor ao “Cordeiro”, sua preocupação para com a escravidão negra. O “Cordeiro”, com toda sua magnânima serenidade, acalma Ismael, dizendo-lhe que “se não podemos tolher-lhes a liberdade, também não podemos esquecer que existe o instituto imortal da justiça divina, onde cada qual receberá de conformidade com os seus atos.

Havia eu determinado que a Terra do Cruzeiro se povoasse de raças humildes do planeta, buscando-se a colaboração dos povos sofredores das regiões africanas; todavia, para que essa cooperação fosse efetivada sem o atrito das armas, aproximei Portugal daquelas raças sofredoras, sem violências de qualquer natureza. A colaboração africana deveria, pois, verificar-se sem abalos perniciosos, no capítulo das minhas amorosas determinações.”

Afirma o “Cordeiro” que devido “à educação condenável e deficiente”19 do homem branco, seus desígnios não estavam sendo cumpridos, e conclui: “os que praticarem o nefando comércio sofrerão, igualmente, o mesmo martírio, nos dias do futuro, quando forem também vendidos e flagelados em identidade de circunstâncias (...) Colocarei a minha luz sobre essas sombras, amenizando tão dolorosas crueldades. Prossegue com as tuas renúncias em favor do Evangelho e confia na vitória da Providência Divina.“

Ismael, insatisfeito, ainda insiste e pergunta ao “divino Cordeiro”, se não haveria possibilidade de “orientar a política dominante, no sentido de se purificar o ambiente moral da Terra de Santa Cruz.” O “Cordeiro” responde que a ninguém cabe cercear os atos de outrem e repete: “cada um será justiçado na pauta de suas próprias obras.” Faz ainda referência aos portugueses colonizadores como o povo remanescente dos antigos fenícios da antiguidade, hoje afetados pelo orgulho oriundo da riqueza acumulada com as conquistas, e finaliza sua pregação dizendo a Ismael: “se não nos é possível cercear o arbítrio livre das almas, poderemos mudar o curso dos acontecimentos, a fim de que o povo lusitano aprenda, na dor e na miséria, as lições sagradas da experiência e da vida.”

Encerrada a audiência, Ismael retorna à luta, “cheio de fervorosa coragem, e os acontecimentos foram modificados” pelo “poder magnânimo e misericordioso” do Cristo, o “Cordeiro de Deus”.

Conforme a narração do Espírito Humberto de Campos, foi dos “ombros flagelados” dos negros que nasceram “lições comovedoras, imunizando todos os espíritos contra os excessos do imperialismo e do orgulho injustificáveis das outras nações do planeta, dotando-se a alma brasileira dos mais belos sentimentos de fraternidade, de ternura e de perdão.”

E por que teriam os negros sofrido tanto com a escravidão? Muito simples. Os escravos seriam, segundo Humberto, “os antigos batalhadores das cruzadas, senhores feudais da Idade Média, padres e inquisidores, espíritos rebeldes e revoltados, perdidos nos caminhos cheios da treva das suas consciências polutas.”

Seguindo a lógica desse raciocínio “cármico”, os negros sul-africanos, vítimas durante muitas décadas do apartheid, do racismo legalizado, seriam quase sem sombra de dúvida, os traficantes de escravos, os senhores de engenho, os capitães do mato, todos agora reencarnados nesse país, para sofrerem as consequências de seus próprios atos. Posição insustentável, como vimos, à luz da filosofia científica do Espiritismo.

Interessante é que Humberto de Campos não faz menção aos índios, vítimas de hediondo genocídio causado pelos bandeirantes portugueses. E os milhões de povos indígenas trucidados pelos espanhóis? E a cultura inca, maia e asteca, todas trucidadas também pelos imperialistas de Castela? Teriam sido algozes do passado? Essa interpretação contábil do processo evolutivo dos seres e dos povos, perde-se numa cadeia sem fim, num emaranhado de projeções mecanicistas das circunstâncias históricas. Quem teria atirado a primeira pedra? Aonde a origem de todo esse conflito existencial?

No movimento espírita, as análises que têm sido feitas da questão do racismo e da escravidão negra, deixam transparecer as influências da teoria arianista, da visão positivista e idealista da história, que desconsidera os fatos em sua dinâmica, em suas contradições. É só observar a grande maioria dos periódicos espíritas, que em 1988, ano do centenário da abolição, publicaram chamadas, ilustrações e artigos de consistência duvidosa. Muitas destas publicações deram em sua primeira página, a foto da “Redentora”, da Princesa Isabel, considerada a libertadora dos escravos, mas que na verdade, no processo de desagregação da ordem escravista, teve um papel subalterno e secundário. Já Humberto sustenta que a “Redentora” foi verdadeiramente missionária, que reencarnou “com a tarefa definida no trabalho abençoado da abolição.” Talvez, devido a essa tarefa supostamente assumida por Isabel no mundo dos Espíritos, é que D. Pedro II se afasta do trono “por motivos de saúde”, deixando-o vago (!?). Na narração de Humberto, nota-se que os Espíritos teriam armado um esquema de bastidores, a fim de afastar o imperador e permitir a entrada, novamente em cena, da princesa pela terceira vez, para assinar A Lei Áurea. É até possível que os Espíritos tenham provocado o afastamento de D. Pedro II do trono. No entanto, é pura ingenuidade considerar a Princesa Isabel como a grande protagonista desse cenário histórico. Se ela não tivesse reencarnado não faria muita diferença. Pela própria força das coisas, segundo a expressão dos Espíritos, a escravidão negra, em 1888, já estava dando os seus últimos suspiros.

Costuma-se negar que haja qualquer tipo de influência racista no movimento espírita. No entanto, temos de considerar que esse é um movimento onde a classe média predomina, trazendo consigo para o seu interior, todos os preconceitos típicos dessa camada social. Sem esquecer que na classe média, a quantidade de brancos é bem pequena.

A classe dirigente do movimento espírita brasileiro é, em sua grande maioria, de origem branca. Os negros são sempre minoria. Quantos dirigentes de centros espíritas e sessões mediúnicas não têm negado a palavra a determinados Espíritos por se apresentarem como índios e pretos velhos, julgando-os inferiores, devido à ascendência étnica de sua encarnação pregressa? O preto velho é o que mais sofre. Muitas receitas, ervas e chás que essa entidade receita, quando se manifesta em terreiros de umbanda, só adquiriram o seu devido valor quando obtiveram a chancela da medicina oficial.

Comunicação no centro espírita, nem pensar, mesmo que seja sem os aparatos típicos a que ele está acostumado (charuto, marafo, roupa branca, vela, etc.). A respeito da manifestação de índios e pretos velhos nas sessões mediúnicas, o filósofo espírita Herculano Pires tece interessante abordagem e analisa o espanto de algumas pessoas impregnadas, segundo ele, “de antigos preconceitos”. Herculano considera também a possibilidade de que tais fenômenos ocorrem no meio espírita como “uma ação programada no sentido de mostrar a iniquidade das discriminações raciais.”

O movimento espírita, como qualquer outro movimento, seja ele qual for, sofre as influências do meio cultural. Na nossa cultura, o sentimento racista se expressa, como vimos, das mais variadas formas. Ela está toda impregnada por este sentimento, que condiciona os valores e o comportamento dos grupos sociais. Não há no movimento espírita o racismo manifesto. Ele não é um movimento como o dos skinheads, por exemplo, que se engajam em uma cruzada segregacionista contra os negros, judeus e nordestinos. Todavia, as pessoas que o compõem se acham mergulhadas numa atmosfera tal que as conduz a comportamentos que poderíamos classificar como racistas. Apesar de serem ideologicamente contra qualquer manifestação racista, podem assumir, sem perceberem, comportamentos nitidamente discriminatórios em relação ao negro, até de modo inconsciente.

Pode-se citar o exemplo do conhecido orador carioca Raul Teixeira, de origem negra, chamado de divaldo preto, dadas as semelhanças de sua oratória e gesticulação com a do conferencista baiano Divaldo Pereira Franco. É claro, que na maioria das vezes, esse apelido é usado de modo aparentemente carinhoso, porém, já presenciamos situações em que era evidente o preconceito racial, pelo modo jocoso como ele foi usado.

Com o advento dos movimentos de consciência negra, religiões afro-brasileiras como a Umbanda, o Candomblé, o Carimbó, etc. passaram a ser mais valorizadas e encaradas como autênticas manifestações da religiosidade nacional, em que pese as influências do cristianismo e do Espiritismo sobre elas.

Afirma o jornalista Ubiratan Machado que “ao lado do kardecismo, desenvolveu-se um vigoroso espiritismo popular. Em alguns momentos, a vitalidade deste chegou a parecer uma ameaça, porém, era apenas aparente. O caminho dos vários espiritismos, apesar dos atalhos de ligação e das influências recíprocas, sempre foram distintos.”

Essa distinção, colocada por Ubiratan Machado quanto às relações entre o Espiritismo e as religiões sincréticas, entre os vários espiritismos, atualmente ganha outras nuances com o movimento negro, a ponto de se estabelecerem nítidas peculiaridades entre Umbanda e Espiritismo, por exemplo, em nível terminológico e semântico. Isso porque, para muitos líderes negros, ”Espiritismo é coisa de branco, é elitista, e foi fundado por um branco europeu”. E a Umbanda, uma religião de negros, uma religião de massas. Através dela o povo tem livre acesso à manifestação mediúnica, enquanto que o Espiritismo, pela sua própria natureza filosófico científica, confere a essas manifestações um tipo de tratamento diferenciado, metodológico e bem mais reservado.

De certo modo, o avanço do movimento negro tem uma contrapartida favorável à divulgação do Espiritismo. Na Bahia, por exemplo, onde os movimentos são bem organizados (Olodum, Afoxé Filhos de Gandhi, Timbalada, etc.), não existe a confusão que se faz, no sul do Brasil, entre Espiritismo e Umbanda, principalmente porque a religião afro-brasileira lá é bem desenvolvida e disseminada. Enquanto que no sul, além do preconceito, há muita desinformação acerca desse tema.

RACISMO ATÁVICO

A raça adâmica, constituída por Espíritos emigrados de outros planetas, tese primeiramente desenvolvida por Allan Kardec em A Gênese (cap. XI), ganhou desdobramentos através da obra do Espírito Emmanuel e do fundador da Aliança Espírita Evangélica, Edgard Armond.

Para Emmanuel, foi com esses Espíritos exilados de Capela, uma estrela da constelação de Cocheiro, “que nasceram no orbe os ascendentes das raças brancas.” As raças negra e amarela, autóctones, já existiam antes da branca, teoria reafirmada por Edgard Armond em sua obra, Os Exilados de Capela, conforme informações colhidas do esoterismo mas, segundo ele, através da inspiração. Para Armond, que se fundamenta claramente na tradição esotérica, a quinta raça, a branca, seria “a última, no tempo, e a mais perfeita que apareceu na Terra, como fruto natural de um longo processo evolutivo”. Estes seriam os aryas, “os homens da gloriosa quinta raça.”

O fundador do Espiritismo não faz referência explícita ao surgimento da raça branca, a não ser na vinculação da raça adâmica à figura de Adão, daí esse nome. “Mais adiantada do que as que a tinham precedido neste planeta, a raça adâmica é, com efeito, a mais inteligente, a que impele ao progresso todas as outras. A Gênese no-la mostra, desde os seus primórdios, industriosa, apta às artes e às ciências, sem haver passado aqui pela infância espiritual, o que não se dá com as raças primitivas.” Kardec considera as raças negras, mongólicas e caucásicas, como de origem própria, nascidas, segundo ele, simultaneamente ou de modo sucessivo, em diversos pontos do planeta. Tese esta que corrobora as assertivas de O Livro dos Espíritos, como se vê no item IV, Diversidade das Raças Humanas (Livro Primeiro, cap. III - Criação) , que reproduzimos a seguir:

52. De onde vem as diferenças físicas e morais que distinguem as variedades de raças humanas na Terra?

- Do clima, da vida e dos hábitos. Dá-se o mesmo que se daria com duas crianças da mesma mãe, que, educadas uma longe da outra e de maneira diferente, não se assemelhassem em nada quanto ao moral.

53. O homem apareceu em muitos pontos do globo?

- Sim, e em diversas épocas, e é essa uma das causas da diversidade das raças; depois, o homem se dispersou pelos diferentes climas, e aliando-se os de uma raça aos de outras, formaram-se novos tipos.

53-a. Essas diferenças representam espécies distintas?

- Certamente não, pois todos pertencem à mesma família. As variedades do mesmo fruto acaso não pertencem à mesma espécie?

54. Se a espécie humana não procede de um só tronco, não devem os homens deixar de considerar-se irmãos?

- Todos os homens são irmãos em Deus, porque são animados pelo espírito e tendem para o mesmo alvo. Quereis sempre tomar as palavras ao pé da letra.

Admitindo-se essa teoria, é bem possível que, por causa das características intelecto-morais dos capelinos, bem superiores à dos Espíritos já reencarnados na Terra, tenha surgido uma espécie de racismo atávico, seria um racismo primordial, que viria talvez justificar a ideologia de superioridade racial para esses Espíritos, facilmente perceptível nas castas da Índia e na “vaidosa aristocracia espiritual” dos hebreus, conforme a expressão emmanuelina.

Todavia, sob um outro enfoque, poderíamos considerar essa teoria como corolário de uma certa dose de preconceito racial contra a raça negra e a amarela, cuja origem étnica seria supostamente inferior à branca, um biotipo mais evoluído(?) e adequado à encarnação de Espíritos mais desenvolvidos.

Edgard Armond e Emmanuel não explicam como surgiu, em termos genéticos e biofísicos, a raça branca. E em que sentido ela seria mais evoluída tipologicamente às demais raças. Por ora, faltam maiores informações para que esta teoria tenha a fundamentação desejada por muitos de seus adeptos mais extremistas, cuja formulação se aproxima inegavelmente da teoria arianista de Gobineau e do Eurocentrismo.

Isto posto, há outro aspecto que é interessante observar. Trata-se da mentalidade racista que certos povos e Espíritos carregam e trazem consigo ao reencarnarem, seja por orgulho ou autopreservação.

As informações dos Espíritos contribuem para ilustrar a característica de certos povos, como os hebreus, os hindus-arianos, os egípcios, etc. pois, através de estudos sociológicos e antropológicos, pôde-se notar, no seu sistema de valores, a presença de uma ideologia racista. Em nossos dias temos exemplos marcantes de nações racistas, em função das circunstâncias sociais e econômicas, e do nível moral dos Espíritos reencarnados. Mesmo com a queda do regime do apartheid, a Africa do Sul é um exemplo a ser lembrado. E isso ocorre também nos grupos sociais, como é o caso dos sionistas, de alguns esquadrões de extermínio, dos antissemitas e tantos outros que se engajam numa luta sectária contra determinadas etnias ou grupos sociais. Os skinheads, exemplo já citado, é um dos grupos que mais explicitam a incorporação da ideologia racista. Tanto que esses punks antissemitas incorporaram, em seu comportamento, toda a simbologia nazista e leem assiduamente a obra My Kempf, escrita por Adolph Hitler, o célebre líder dos nazistas. Não estariam aí nazistas reencarnados?

CONCLUSÃO

O racismo é um desse sistemas que tendem a desaparecer, na medida em que a humanidade evolui e adquire novos conhecimentos, valores e virtudes que não fiquem somente no papel, ou no mero discurso de religiosos hipócritas e humanistas de segunda classe.

No Brasil, a discriminação racial já é caso de polícia. Sob o ponto de vista ético, o preconceito e a discriminação raciais se tornaram intoleráveis. A legislação prevê penalidades àqueles que desrespeitarem o direito de um cidadão, apenas por pertencer a determinada etnia, considerada “inferior”. Mesmo com o crescimento de grupos antissemitas como os neonazistas, no nosso país e no mundo, não há como retroceder a antigos valores espúrios, que tanto mal trouxeram à humanidade.

Há muito ainda que se avançar nesse campo. Somente o próprio negro poderá conquistar seu espaço na cultura, em todas as áreas do conhecimento. Ninguém fará por ele aquilo que deve ser feito para o seu próprio bem estar. Do mesmo modo, as etnias da Europa Oriental, da antiga “cortina de ferro”, terão de se organizar se quiserem que sua voz seja ouvida e seus direitos garantidos, bem como as comunidades negras de toda a África, e de todos os grupos étnicos discriminados em qualquer parte do planeta.

O racismo, talvez por ter sido considerado como uma questão menor pelo movimento espírita, é um tema pouco abordado. A bibliografia é escassa. Na década de 40, o filósofo espírita David Grossvater, da Venezuela, de ascendência judaica, em alguns momentos de sua obra, ainda desconhecida no Brasil, chegou a abordar o tema. Os pensadores espíritas brasileiros Herculano Pires e Deolindo Amorim, de “en passant”, também se referiram ao racismo, mas sem se debruçar com maior profundidade.

A questão das minorias, a questão da mulher, dos homossexuais, das etnias discriminadas, dentre outras, não podem ser desprezadas. Isso significa inserir o Espiritismo na modernidade e assim, enfrentar toda a problemática existencial de nosso tempo, sem o receio de reavaliar _ segundo uma releitura crítica, contextualizada e qualitativa _ determinadas posições de Allan Kardec e dos Espíritos que participaram da estruturação da filosofia espírita.

Do livro Racismo e Espiritismo, por Eugenio Lara. 

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