Curas, tratamentos espirituais, passes

A cura, na visão espírita, deve ser entendida a partir da tríplice realidade do ser humano: Espírito-perispírito-corpo. O primeiro é a essência inteligente, imortal e indestrutível. É criado simples e ignorante e está sempre em processo evolutivo adquirindo experiências através das provas que se apresentam nas sucessivas reencarnações (O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, questão 115). Além dessa “carência evolutiva” por provas, o ser imortal corre o risco de exceder-se, afrontando as Leis Divinas gravadas na consciência (questão 621), adquirindo expiações para reparar o engano cometido.

Ainda, existem as missões em que Espíritos nobres se valem da existência física para demonstrar como é possível renunciar às paixões materiais frente a uma dificuldade de percurso. Naturalmente, as tribulações da vida durante a encarnação também são causadas pela imprudência, constituindo um grande conjunto de causas atuais das aflições, como Allan Kardec explicou no capítulo V de O Evangelho Segundo o Espiritismo.

Médiuns e feiticeiros

Visitante. — Desde que a mediunidade não é mais que um meio de entrar em relação com as potências ocultas, médiuns e feiticeiros são mais ou menos a mesma coisa.

A. K. — Em todos os tempos houve médiuns naturais e inconscientes que, pelo simples fato de produzirem fenômenos insólitos e incompreendidos, foram qualificados de feiticeiros e acusados de pactuarem com o diabo; foi o mesmo que se deu com a maioria dos sábios que dispunham de conhecimentos acima do vulgar. A ignorância exagerou seu poder e, muitas vezes, eles mesmos abusaram da credulidade pública, explorando-a; daí a justa reprovação que os feriu. Basta-nos comparar o poder atribuído aos feiticeiros com a faculdade dos verdadeiros médiuns, para conhecermos a diferença, mas a maioria dos críticos não se quer dar a esse trabalho. Longe de fazer reviver a feitiçaria, o Espiritismo a aniquila, despojando-a do seu pretenso poder sobrenatural, de suas fórmulas, engrimanços, amuletos e talismãs, e reduzindo a seu justo valor os fenômenos possíveis, sem sair das leis naturais.

A semelhança que certas pessoas pretendem estabelecer, provém do erro em que estão, julgando que os Espíritos estão às ordens dos médiuns; repugna à sua razão crer que um indivíduo qualquer possa, à vontade, fazer comparecer o Espírito de tal ou tal personagem, mais ou menos ilustre; nisto eles estão perfeitamente com a verdade, e, se antes de apedrejarem o Espiritismo, se tivessem dado ao trabalho de estudá-lo, veriam que ele diz positivamente que os Espíritos não estão sujeitos aos caprichos de ninguém, que ninguém pode, à vontade, constrangê-los a responder ao seu chamado; do que se conclui que os médiuns não são feiticeiros.

Médiuns interesseiros

V. — Antes de empreender um estudo de longo fôlego, há muita gente que deseja ter certeza de que não vai perder o tempo, certeza que lhe poderia provir do fato concludente, mesmo obtido a peso de ouro.

A. K. — Aquele que não se quer dar ao trabalho de estudar, é antes guiado pela curiosidade, que pelo desejo real de se instruir; ora, os Espíritos, assim como eu, não gostam dos curiosos. Além disso, a cobiça é-lhes, sobretudo, antipática, e eles recusam-se a prestar-lhe qualquer serviço; crer que Espíritos superiores como Fénelon, Bossuet, Pascal, Santo Agostinho, se ponham às ordens do primeiro que os chame, a tanto por hora, é fazer ideia bem falsa das nossas relações com o mundo espiritual. Não, senhor. As comunicações de além-túmulo são assunto muito grave e respeitabilíssimo para serem assim exibidas.

Sabemos que os fenômenos espíritas não se produzem como o movimento das rodas de um mecanismo, porquanto dependem da vontade dos Espíritos; mesmo admitindo-se que um indivíduo possua aptidão mediúnica, nada lhe garante obter uma manifestação em dado momento. Se os incrédulos são inclinados a suspeitar da boa-fé dos médiuns em geral, muito pior seria se neles encontrassem o estímulo do interesse; com razão se poderia suspeitar que o médium retribuído simulasse quando o Espírito não o auxiliasse, pois que ele desejaria de qualquer forma ganhar dinheiro. Além de que o desinteresse absoluto é a melhor garantia de sinceridade, repugnaria à razão evocar por dinheiro os Espíritos das pessoas que nos são caras, supondo que eles consintam nisso, o que é mais que duvidoso; em todos os casos só se prestariam a isso Espíritos de classe inferior, pouco escrupulosos a respeito de meios, e que não merecem confiança alguma; e estes mesmos, muitas vezes, encontram um divertimento maldoso em frustrar as combinações e os cálculos do seu evocador.

Meios de comunicação

Visitante. — Falastes de meios de comunicação; podereis dar-me disso uma ideia, porquanto é difícil compreender como podem esses seres invisíveis conversar conosco?

A. K. — De boa vontade; vou fazê-lo, contudo, abreviadamente, porque isto exigiria prolongado desenvolvimento, que encontrareis minuciosamente em O livro dos médiuns. Mas o pouco que eu vos disser, agora, bastará para facilitar-vos a compreensão do mecanismo e servirá, sobretudo, para vos dar uma ideia de algumas das experiências, a que podereis assistir, antes de começar a vossa iniciação. 

A existência desse envoltório semi-material é já uma chave para a explicação de muitas coisas e mostra-vos a possibilidade de certos fenômenos. Quanto aos meios, são muito variados e dependem tanto da natureza, mais ou menos apurada dos Espíritos, quanto das disposições peculiares às pessoas que lhes servem de intermediárias. O mais vulgar — o que se pode chamar universal — consiste na intuição, isto é, nas ideias e pensamentos que eles nos sugerem; é este, porém, um meio pouco apreciável, na generalidade dos casos; outros existem mais materiais. 

Fenômenos espíritas simulados

Visitante. — Não estará provado que, fora do Espiritismo, esses mesmos fenômenos podem produzir-se? E disso não podemos concluir que eles não têm a origem que os espíritas lhes atribuem?

A. K. — Por ser uma coisa suscetível de imitação, segue-se que ela não exista? Que direis da lógica daquele que pretendesse, por se fabricar com água de Seltz vinho de champanhe, ser todo vinho desta espécie apenas água de Seltz? Isto é privilégio de todas as coisas que apresentam a possibilidade de engendrar falsificações. Acreditaram alguns prestidigitadores que o nome de espiritismo, por causa da sua popularidade e das controvérsias de que era objeto, podia servir a explorações, e para atrair a multidão simularam, mais ou menos grosseiramente, alguns fenômenos de mediunidade, como já tinham simulado a clarividência sonambúlica; e todos os gaiatos os aplaudiram, bradando: Eis aí o que é o Espiritismo! Quando se mostrou em cena a engenhosa aparição dos espectros, não se proclamou que naquilo recebia o Espiritismo um golpe mortal? Antes de pronunciar tão positiva sentença, deve-se refletir que as asserções de um escamoteador não são palavras de um evangelho, e certificar se há identidade real entre a imitação e a coisa imitada. Ninguém compra um brilhante sem primeiro estar convencido de não ser uma pedra-d'água. Um estudo, mesmo pouco acurado, tê-los-ia certificado de serem completamente outras as condições em que se dão os fenômenos espíritas; eles, além disso, ficariam sabendo que os espíritas não se ocupam de fazer aparecer espectros nem de ler a buena-dicha.

Espiritismo e espiritualismo

Visitante. – Pergunto-vos, em primeiro lugar, qual a necessidade da criação de novos termos: espírita e espiritismo, para substituir: espiritualista e espiritualismo, que são da língua vulgar e por todos compreendidos? Já ouvi alguém classificar tais termos de barbarismos.

A. K. — De há muito tem já a palavra espiritualista uma acepção bem determinada; é a Academia que no-la dá: Espiritualista, aquele ou aquela pessoa cuja doutrina é oposta ao materialismo. Todas as religiões são necessariamente fundadas sobre o espiritualismo. Aquele que crê que em nós existe outra coisa, além da matéria, é espiritualista, o que não implica a crença nos Espíritos e nas suas manifestações. Como o podereis distinguir daquele que tem esta crença? Ver-vos-eis obrigado a servir-vos de uma perífrase e dizer: É um espiritualista que crê ou não crê nos Espíritos. Para as novas coisas são necessários termos novos, quando se quer evitar equívocos. Se eu tivesse dado à minha Revista a qualificação de espiritualista, não lhe teria especificado o objeto, porque, sem desmentir-lhe o título, bem poderia nada dizer nela sobre os Espíritos, e até combatê-los. Já há algum tempo, li num jornal, a propósito de uma obra filosófica, um artigo em que se dizia tê-la o autor escrito do ponto de vista espiritualista; ora, os partidários dos Espíritos ficariam singularmente desapontados se, confiantes nessa indicação, acreditassem encontrar alguma concordância entre o que ela ensina e as ideias por eles admitidas. Se adotei os termos espírita, espiritismo, é porque eles exprimem, sem equívoco, as ideias relativas aos Espíritos. Todo espírita é necessariamente espiritualista, mas nem todos os espiritualistas são espíritas. Ainda que os Espíritos fossem uma quimera, havia utilidade em adotar termos especiais para designar o que a eles se refere; porque as falsas ideias, como as verdadeiras, devem ser expressas por termos próprios.